Século da Latrina

Século da Latrina

Nem faz tanto tempo assim, uns 80 anos quando no centro do Rio de Janeiro se vestiam as pessoas como em Nova York, do mesmo modo que os homens na mesma hora em Paris, em Londres, em Milão, em Roma ou em Berlim estavam todos os homens com os seus chapéus nas cabeças, com gravatas, paletós, e calças compridas, sim, os homens não usavam roupas de crianças como hoje que vão aos sepultamentos de bermudas, e as mulheres com suas roupas coladas a vácuo, mostrando todas as suas entranhas, reentrâncias, protuberâncias com todos os detalhes que aquilo que era para vestir o corpo e agora serve apenas de moldura da sensualidade gratuita, então, o que mudou na humanidade?

No Brasil os programas infantis ficaram iguais aos mesmos programas suecos com apresentadores e apresentadoras mostrando pequenos modelos de pênis ou falos masculinos apenas para provar que o recatamento era coisa do passado, tudo é permitido e liberado.

Não é bem assim. A humanidade precisou de quase cinco milênios para descobrir que a escravidão de outro ser humano não era uma coisa natural, ou, deixou de ser natural com muita resistência e a superação por outro sistema de prestação de mão de obra mais lucrativo com contratos de trabalhos aviltantes, denunciados por Karl Marx, sem deixar de fazer seu exageros e propor a troca da exploração capitalista pela exploração estatal, o que dá no mesmo, o fim da escravidão não foi necessariamente uma evolução na humanidade, porque a exploração tributária é tão pior do que a escravidão, e quanto tempo ainda levará a humanidade para abolir essa forma de escravidão moderna que é o pagamento de tributos, taxas, impostos para o senhor feudal chamado sistema do estado de direito, que nos submetemos por contrato de adesão quando nascemos em um território, sem pedir para nascer ali, e somos obrigados a trabalhar muitos dias, meses apenas para pagar tributos para o Deus chamado estado, e carregar uma pesada burocracia desde que nascemos com um certificado de nascimento, até o certificado de morte quando morremos, assim, durante a vida preenchemos mais ou menos uma centena de papéis para saciar a burocracia que controla tudo, desde os primeiros formulários para frequentar os primeiros anos da escola e pré escola, com seus boletins inúteis de atividades infantis, pueris, até chegar ao nível médio ou à faculdade, se muito for, já teremos gasto nossa tonelada de papéis de formulários de matrícula, rematrícula, provas e testes escolares, livros, cadernos, trabalhos de pesquisa, mais formulários para fazer compras, frequentar clubes, tirar licenças para dirigir veículos, comprar objetos de valor com seus certificados de propriedades, contratos de compra e venda de imóveis e veículos, certificados de certificações para trabalhar, com os registros de presença diária às aulas e ao serviço trabalhado, tudo devidamente registrado e certificado de acordo com cada estatuto da escola, da igreja, do clube, condomínio residencial, tudo é uma prisão de formalidades, apenas o namoro ainda não foi formalizado em documentos escritos e gravados, mas se acontece um rompimento brusco unilateral e com perdas materiais e emocionais com gravames então entra a mais burocratizada atividade humana de todas em que se vive pela idolatria dos papéis e palavreado abundante e excessivo que é o judiciário, onde uma simples ação pode conter no mínimo 500 páginas de descrições, acautelamentos, citações, descrições, testemunhos, depoimentos, podendo facilmente ultrapassar as dez mil laudas para investigar, rastrear, descrever e construir todas as narrativas de um evento trivial que causou a divergência entre duas vontades opostas.

Esse é o mundo que construímos para ficarmos nessas prisões e vem se degradando progressivamente, ou, regressivamente, as novas gerações continuam no seu processo natural de enquanto juventude desconstruir o passado pelo simples prazer e volúpia juvenil de ser revolucionária, apenas para mudar por mudar, assim a sucessão de modismos é uma necessidade irracional apenas para deixar a sua marca no passado para o futuro, para não ser esquecida como o passado merece, então vivemos todos os horrores do desespero de uma geração que não tem nada de novo que não tenha sido tentado antes para ser novidade; se recorre aos modismos dos horrores para não se ignorada, para não ser medíocre, e essa busca pela notoriedade cria as circunstâncias mais bizarras que estamos vivenciando neste fim de era das idiotices do mundo da internet, onde as pseudo celebridades apenas contam com o número de likes e views para se sentirem importantes para toda a humanidade se preocupando apenas com o número de seguidores construídos com a compra de engajamento e das máquinas virtuais dos robots e dos vírus de disseminação de transitoriedades aleatórias e superficiais. 

É tudo um lixo urbano e inconsequente, geração suicida e maléfica que adota a violência dos vídeo games disfarçados de distração e esporte e entretenimento aparentemente inocentemente simulado de violência, mas este mesmo algoritmo cibernético deste mesmo dispositivo de simulador digital virtual não é tão inocente quando treina pilotos militares e comerciais usando o mesmo algoritmo de realidade virtual, apenas desculpas para esconder no vídeo game o melhor esporte do ser humano que é o seu fascínio pela violência.

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